*Dr. Airton Kwitko
Todo profissional da comunidade de segurança (engenheiros, médicos, técnicos de segurança, fonoaudiólogos e outros) tem o mesmo discurso (ou sentimento) quanto à parte significativa de seu trabalho – a dificuldade em contar com suporte administrativo. Suporte significa tanto o reconhecimento da necessidade das ações de saúde e segurança no trabalho, como a alocação de recursos materiais e financeiros para que programas nesta área desenvolvam-se. Nós que trabalhamos na conservação auditiva conhecemos o que pode ser denominado de “dura batalha” para que o trabalho seja implantado. Isto tem uma série de razões. Em um mundo ideal, decisões administrativas poderiam conduzir intuitivamente ao entendimento da necessidade de uma obrigação moral de proteger a audição dos indivíduos que estão empregados, mas sabemos que freqüentemente os programas de conservação auditiva não recebem os suportes necessários.
Quais são as barreiras que impedem este desprendimento administrativo e como é possível que nós, da comunidade de segurança, alterá-las? Uma falta de suporte administrativo pode ser devida aos seguintes fatores:
1. Falta de determinação: A conservação auditiva não é vista como um problema de vida e morte, e a atitude prevalente é de que a perda auditiva nunca matou ninguém, etc.
2. Falta de recursos: O programa de conservação auditiva está competindo com programas como trabalho em espaços confinados, programas ergonômicos que tem repercussão imediata na produtividade, programas que pretendem evitar incidentes catástróficos, etc.
3. Falta de conhecimento: Os administradores freqüentemente não entendem os efeitos do ruído na audição; que a perda auditiva não é sempre causada pela idade; que esta perda não pode ser “corrigida” com o uso de aparelhos; que a exposição ao ruído interfere com a capacidade de comunicação, segurança e produtividade, e com a qualidade de vida; que os EPIs auditivos não oferecem garantia total de proteção; que a empresa perde muito dinheiro com ações de reparação em diversos níveis; que prevenir é o menor custo e a melhor resposta
4. Falta de cobrança de responsabilidades: Muitos empregados não acionam seus ex-empregadores por perda auditiva, até porque não sabem da existência da mesma. Numa realidade de prevalência de perda auditiva ocupacional de 40 a 60% dos indivíduos expostos, é relativamente muito pequeno o número de ações de reparação. Também administradores não são penalizados por seus empregadores ao deixarem de tomar atitudes preventivas.
Ou seja: a empresa paga para ter um suporte de saúde e segurança no trabalho (gerentes, engenheiros, médicos, técnicos de segurança, EPIs , exames, cursos, etc) e depois paga
novamente para ressarcir o empregado da doença contraída.
5. Falta de tempo: Mesmo os administradores que tem uma consideração com a conservação auditiva podem ter falta de tempo para dedicar-se a ela, pois as crises do dia-a-dia e outras
necessidades mais urgentes interferem.
Desenvolvendo soluções
O primeiro passo é alterar a maneira pela qual a profissão de “membro da comunidade de segurança” se comporta diante desta circunstância. Ao invés de simplesmente aceitar o estabelecido, mostrar que a profissão é mais que uma executora de atitudes pré-estabelecidas e antes uma consultora para o que deve ser feito. O passo seguinte é analisar o seu específico ambiente de trabalho e identificar as barreiras que separam o administrador do trabalho de saúde e segurança. Claramente, você precisa desenvolver o conhecimento das barreiras para adotar estratégias que tragam benefícios para a corporação.
Nesta estratégia, é útil mostrar quais as exigências legais que não estão sendo atendidas e o que isto pode significar. Nesta linha, apresentar a segurança e saúde no trabalho como um processo que deveria ser integrado a todo o sistema operacional do negócio, e não apenas como atividades que são de responsabilidade de representantes da segurança ou de um profissional.
Ainda, a estratégia prevê fornecer informações aos administradores de que o sistema de segurança está conectado à um aumento da produtividade, a diminuição de doenças, melhoria na moral do trabalhador e tudo isto tem efeitos nos resultados financeiros. Mas, como fazer este trabalho de reapresentação do seu sistema de saúde e segurança no trabalho se o administrador tem pouco tempo para lhe oferecer, e ele já adotou o conceito de que as ações nesta área estão sob controle, sendo adequadas porque a empresa tem engenheiro, médico, CIPA, técnico de segurança, compra EPIs, faz testes audiométricos, tem cabine audiométrica, audiômetro, fonoaudióloga, etc?
Entenda que o conhecimento do administrador é reduzido! Nós podemos assumir que o administrador tem conhecimento dos efeitos da perda auditiva na produtividade do trabalhador e nas ações de reparação. Entretanto, nem todos administradores compreendem que o descaso com o ruído ocupacional e a perda auditiva significa uma soma apreciável que é desperdiçada. Os aspectos que você deve estar apto para desenvolver quando apresentar o assunto ao administrador são: Se a cobrança da fiscalização é pequena e as ações de reparação ainda não começaram, que outros efeitos pode ter a perda auditiva na produtividade do trabalhador?
O administrador entende que o trabalho com ruído excessivo pode deixar as pessoas estressadas e que isto contribui para causar doenças, com mais despesas em consultas médicas, exames laboratoriais, com conseqüentes afastamentos do trabalho e dias perdidos, tendo isto reflexo na produtividade? O administrador entende que trabalhar em ambiente ruídoso afeta a comunicação entre os empregados e isto pode causar mais acidentes?
Há exposição significativa no ambiente de trabalho à solventes ou outros químicos como chumbo orgânico, cujos efeitos isolados ou combinados ao ruído podem originar perda auditiva?
Quais efeitos têm a perda auditiva na vida social dos empregados?
Entenda a cultura da empresa. Lembre-se que as empresas estão afastadas em filosofia de segurança. Por exemplo: A empresa “A” é uma indústria pequena com ruído excessivo fora de controle e seus administradores são indiferentes às necessidades de conservação auditiva porque eles vem esta atividade como uma dificuldade para permanecer no seu negócio. A empresa “B” é uma grande corporação com um bem estabelecido programa de segurança, onde existem facilidades para adequar-se às exigências legais e há uma forte aceitação de melhores desempenhos. Na empresa “B” os administradores notam que é feito “tudo pela segurança” e que seus colaboradores não deveriam despender seu tempo em um novo programa, já que não existem problemas e tudo está sob controle. Relacionar os efeitos da perda auditiva nos específicos resultados financeiros e na produtividade é o método para conseguir a adesão do administrador, em cada caso. Na empresa “A” a abordagem é sobre os problemas legais.
Outros métodos como persuasão moral tem pouca chance de sucesso. Este aspecto têm mais possibilidade de êxito na empresa “B”, a qual já tem um alto nível de adesão administrativa.
Enfim, não pergunte o que sua empresa pode fazer por você, mas o que você pode fazer por ela. Boa sorte!
*Dr. Airton Kwitko
Médico e professor do Curso de Especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho da PUC-RS; Colunista da Revista CIPA e fez a implantação de Programas de Conservação Auditiva em diversas empresas do Pais.
|