O PORTAL DA ACÚSTICA.

   
 

Ruído Ambiental

28 de January de 2010, por Vibranews - O Portal da Acústica
 

Prof. Dr. João Candido Fernandes*

Os altos níveis de ruído urbano têm se transformado, nas últimas décadas, em uma das formas de poluição que mais preocupa os urbanistas e arquitetos.  Os valores registrados acusam níveis de desconforto tão altos que a poluição sonora urbana passou a ser considerada como a forma de poluição que atinge o maior número de pessoas.  Assim, desde o congresso mundial sobre poluição sonora em 1989, na Suécia, o assunto passou a ser considerado como questão de saúde pública.  Entretanto, a preocupação com os níveis de ruído ambiental já existia desde 1981, pois, no Congresso Mundial de Acústica, na Austrália, as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro passaram a ser consideradas as de maiores níveis de ruído do mundo.  Nas cidades médias brasileiras, onde a qualidade de vida ainda é preservada, o ruído já tem apresentado níveis preocupantes fazendo com que várias delas possuam leis que disciplinem a emissão de sons urbanos.
Numa visão mais ampla, o silêncio não deve ser encarado apenas como um fator determinante no conforto ambiental, mas como um direito do cidadão.  O bem-estar da população não deve ser tratado apenas com projetos de isolamento acústico tecnicamente perfeitos, mas, além disso, exige uma visão crítica de todo o ambiente que vai receber a nova edificação.  É necessária uma discussão a nível urbanístico. Outro conceito importante a ser discutido se refere às comunidades já assentadas ameaçadas pela poluição sonora de novas obras públicas.  A transformação de uma tranqüila rua em avenida, a construção de um aeroporto ou de uma auto-estrada, ou uma via elevada, podem elevar o ruído a níveis insuportáveis.

Avaliação do Ruído Ambiental
O método mais utilizado para avaliar o ruído em ambientes é a aplicação das curvas NC (Noise Criterion) criadas por Beranek em pesquisas a partir de 1952.  Em 1989 o mesmo autor publicou as Curvas NCB (Balanced Noise Criterion Curves), com aplicação mais ampla.  São várias curvas representadas em um plano cartesiano que apresenta no eixo das abscissas as bandas de freqüências e, no eixo das ordenadas, os níveis de ruído.  Cada curva representa o limite de ruído para uma das atividades, tendo em vista o conforto acústico em função da comunicação humana.
A Fig. 6.1 apresenta as curvas NCB e a Tabela 6.1 o limite de utilização para várias atividades.  Por exemplo, a curva NC-10 estabelece o limite de ruído para salas de concerto, estúdios de rádio ou TV; a curva NC-20 o limite para auditórios e igrejas; a curva NC-65 (a de maior nível) o limite para qualquer trabalho humano, com prejuízo da comunicação, mas sem haver o risco de dano auditivo.  A NBR 10.151 adotou estas curvas como padrão, estabelecendo uma tabela (Tabela 6.2) com limites de utilização.


Fig. 4.1  - Curvas Critério de Ruído Balanceadas (NCB) (BERANEK, 1989 e       BERANEK, 1989).


No Brasil, os critérios para medição e avaliação do ruído em ambientes são fixados pelas Normas Brasileiras da Associação Brasileira de Normas Técnicas. As principais são:

 NBR 7731 - Guia para execução de serviços de medição de ruído aéreo e avaliação
                         dos seus efeitos sobre o homem;
 NBR 10151 - Avaliação do ruído em áreas habitadas visando o conforto da
                          comunidade;
  NBR 10152 (NB-95) - Níveis de ruído para conforto acústico.

Nesta última norma, a fixação dos limites de ruído para cada finalidade do ambiente é feita de duas formas: pelo nível de ruído encontrado em medição normal (em dB(A)), ou com o uso das curvas NC ou NCB (Tabela 6.2).
 



 

 

Tabela 6.1 - Limite de utilização para várias atividades humanas em função das curvas NCB estabelecidas por Beranek.

Curva NCB

Tipo de ambiente que pode conter como máximo ruído, os níveis da da curva correspondente

10

Estúdios de gravação e de rádio (com uso de microfones à distância)

10 a 15

Sala de concertos, de óperas ou recitais (para ouvintes de baixos níveis sonoros)

20

Grandes auditórios, grandes teatros, grandes igrejas (para médios e grandes intensidades sonoras)

25

Estúdios de rádio, televisão, e de gravação (com uso de microfones próximos e captação direta)

30

Pequenos auditórios, teatros, igrejas, salas de ensaio, grandes salas para reuniões, encontros e conferências (até 50 pessoas), escritórios executivos.

25 a 40

Dormitórios, quartos de dormir, hospitais, residências, apartamentos, hotéis, motéis, etc. (ambientes para o sono, relaxamento e descanso).

30 a 40

Escritórios com privacidade, pequenas salas de conferências, salas de aulas, livrarias, bibliotecas, etc. (ambientes de boas condições de audição).

30 a 40

Salas de vivência, salas de desenho e projeto, salas de residências (ambientes de boas condições de conversação e audição de rádio e televisão).

35 a 45

Grandes escritórios, áreas de recepção, áreas de venda e depósito, salas de café, restaurantes, etc. (para condições de audição moderadamente boas).

 

40 a 50

Corredores, ambientes de trabalho em laboratórios, salas de engenharia, secretarias (para condições regulares de audição).

45 a 55

Locais de manutenção de lojas, salas de controle, salas de computadores, cozinhas, lavanderias (condições moderadas de audição).

50 a 60

Lojas, garagens, etc. (para condições de comunicações por voz ou telefone apenas aceitáveis).  Níveis acima de NCB – 60 não são recomendadas para qualquer ambiente que exija comunicação humana.

55 a 70

Para áreas de trabalho onde não se exija comunicação oral ou por telefone, não havendo risco de dano auditivo.

     

 

 

Tabela 6.2. - Níveis de som para conforto, segundo a NBR 10152

 

LOCAIS

dB(A)

Curvas  NC

Hospitais

     Apartamentos, Enfermarias, Berçários, Centros Cirúrgicos

     Laboratórios, Áreas para uso público

     Serviços

 

35 -45

40 - 50

45 -55

 

30 -40

35 -45

40 -50

Escolas

     Bibliotecas, Salas de música, Salas de desenho

     Salas de aula, Laboratórios

     Circulação

 

35 -45

40 -50

45 - 55

 

30 - 40

35 - 45

40 - 50

Hotéis

     Apartamentos

     Restaurantes, Salas de estar

     Portaria, Recepção, Circulação

 

35 – 45

40 – 50

45 – 55

 

30 - 40

35 - 45

40 - 50

Residências

     Dormitórios

     Salas de estar

 

35 – 45

40 – 50

 

30 - 40

35 - 45

Auditórios

     Salas de concerto, Teatros

     Salas de Conferências, Cinemas, Salas de uso múltiplo

 

30 - 40

35 - 45

 

25 - 30

30 – 35

Restaurantes

40 - 50

35 - 45

Escritórios

     Salas de reunião

     Salas de gerência, Salas de projetos e de administração

     Salas de computadores

     Salas de mecanografia

 

30 - 40

35 - 45

45 - 65

50 - 60

 

25 - 35

30 - 40

40 - 60

45 - 55

Igrejas e Templos

40 - 50

35 - 45

Locais para esportes

     Pavilhões fechados para espetáculos e ativ. esportivas

 

45 - 60

 

40 - 55



Trabalhos científicos relacionados com o ruído ambiental demonstram que uma pessoa só consegue relaxar totalmente durante o sono, em níveis de ruído abaixo de 39 dB(A), enquanto a Organização Mundial de Saúde estabelece 55 dB(A) como nível médio de ruído diário para uma pessoa viver bem.  Portanto, os ambientes localizados onde o ruído esteja acima dos níveis recomendados necessitam de um isolamento acústico.
Acima de 75 dB(A), começa a acontecer o desconforto acústico, ou seja, para qualquer situação ou atividade, o ruído passa a ser um agente de desconforto.  Nessas condições, há uma perda da inteligibilidade da linguagem, a comunicação fica prejudicada, passando a ocorrer distrações, irritabilidade e diminuição da produtividade no trabalho.  Acima de 80 dB(A), as pessoas mais sensíveis podem sofrer perda de audição, o que se generaliza para níveis acima de 85 dB(A).

*Fonte: Apostila “Acústica e Ruídos”
 Prof. Dr. João Candido Fernandes
Titular do Depto de Engenharia Mecânica - UNESP - Bauru (SP)


 


 

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