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Escritórios Corporativos

23 de Março de 2010, por Vibranews - O Portal da Acústica
 

Arq. Marcos Holtz – Harmonia Acústica Ltda.


Consciência do que é conforto acústico é fundamental para melhorar as condições de trabalho em qualquer área de atividade.  Empresas que investem em qualidade acústica em seus escritórios produzem mais e melhor, com funcionários mais motivados, atentos e concentrados. Este artigo abordará os principais aspectos envolvidos no tratamento acústico de escritórios corporativos com uma abordagem prática das possíveis soluções.
O escritório corporativo
A partir da década de 60, com os escritórios abrigando um número cada vez maior de pessoas, nasceram nos Estados Unidos os escritórios panorâmicos. Eles aboliam as tradicionais salas individuais colocando no mesmo espaço departamentos inteiros. Esta tipologia fez tanto sucesso que é a mais utilizada até hoje, normalmente em conjunto com salas fechadas para usos específicos.
Basicamente a tipologia dos edifícios se repete: edifícios verticais e planta com núcleo central onde ficam os sanitários, as centrais de instalações e as circulações verticais (escadas e elevadores). Deste núcleo se ramificam os dutos de ar condicionado e toda infra-estrutura de elétrica, telefonia e lógica para alimentar as estações de trabalho ao longo do andar.  Dependendo da estrutura da empresa são criadas salas fechadas para reuniões, conferências, treinamento e auditórios.
Os equipamentos maiores e mais ruidosos (geradores de energia, chillers, ventiladores/exaustores) costumam ir para a cobertura e/ou subsolo do edifício.
O Projeto Acústico
Um estudo detalhado do negócio da empresa é o primeiro passo para orientar todo o processo. Entender as necessidades e principalmente as expectativas do cliente quanto ao resultado final do projeto é de vital importância.
O desenvolvimento em conjunto com os arquitetos e demais especialistas é muito importante e deve ser pensado logo no início do projeto, onde o impacto das mudanças necessárias tem custo muito mais baixo.
As soluções acústicas variam em função do tipo de problema a ser tratado. Podemos resumir em basicamente três aspectos: privacidade em escritórios panorâmicos, privacidade em salas fechadas e em controle dos níveis de ruído para conforto e vizinhança.
Privacidade em escritórios panorâmicos
Ter privacidade é fundamental em escritórios panorâmicos. Tanto para o sigilo de quem fala quanto para o conforto quem escuta, sendo uma fonte de distração e perda de produtividade.
A privacidade pode ser quantificada em termos de relação sinal/ruído. Isto é facilmente sentido quando estamos em um local ruidoso, como um restaurante lotado sem tratamento acústico. É praticamente impossível entendermos o que está sendo falado, mesmo a curtas distâncias. Já em uma biblioteca é possível compreender conversas baixas mesmo a uma distância razoável.
Portanto, para obter a privacidade desejada devem ser previstos dispositivos de controle dos itens abaixo

  • Fonte sonora e seus caminhos de propagação;

O som direto normalmente pode ser atenuado por anteparos frontais aos usuários, uma vez que a voz humana é uma fonte sonora direcional. O emprego de forros fonoabsorventes (aw acima de 0.80) ou baffles acústicos (Fig.2), o uso de carpete, o emprego de materiais fonoabsorventes em móveis, biombos e paredes (Fig. 1) são ferramentas para atenuar o som refletido. Estas estratégias dependem do layout proposto e do projeto de interiores do edifício, devendo ser discutidas e viabilizadas com o projetista de Arquitetura.

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Figura 1 – Lambri fonoabsorvente de parede
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Figura 2 – Escritório panorâmico com baffles acústicos

  • Ruído de fundo

As fachadas envidraçadas, tão comuns nos edifícios atuais, podem causar diminuição excessiva no ruído de fundo. Nestes casos o ruído do ar condicionado pode funcionar para elevá-lo a um nível desejado. Lembramos que não é tarefa fácil, pois o ruído do ar condicionado é de difícil controle e se possuir componentes tonais pode ser extremamente desagradável. Para um melhor desempenho existem sistemas de mascaramento sonoro reguláveis, que são sistemas de som ocultos sobre o forro capazes de produzir um ruído controlado de maneira ininterrupta.
Para um estudo mais detalhado existem índices objetivos que podem medir a privacidade, como o Privacy Index (PI) e o Articulation Index (AI), que levam em conta a relação sinal ruído (LONG,2006) e possuem correspondência com as categorias propostas por Chanaud, descritas adiante.
Privacidade em escritórios fechados
Determinadas atividades, como reuniões importantes, treinamentos, palestras, etc. exigem maior concentração e ambientes mais controlados. E o projeto acústico dos elementos envoltórios destas salas deve ser muito criterioso, podendo incluir:

  • Portas acústicas,
  • Paredes de laje de piso a laje de forro,
  • vedação no encontro das paredes com os caixilhos da fachada (Fig. 3a e 3b)
  • Passagem de dutos pelos corredores, evitando cruzar sobre as salas. (Fig. 4)
  • Retorno do ar condicionado dutado ou através de chicanes (caso de retorno por plenum)
  • Estudo das passagens de instalações cruzando paredes.

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Figura 3a e 3b – Encontro das paredes com os caixilhos de fachada
A performance de isolamento acústico dos elementos envoltórios vai depender da privacidade pretendida. Abaixo um resumo das cinco categorias propostas por Chanaud (CHANAUD,1983):

  • Privacidade confidencial: Não consegue conversar, entender ou eventualmente sentir a presença de pessoas fora do ambiente. Conversas confidenciais são possíveis. Sem distrações
  • Privacidade Normal: Difícil de conversar com pessoas fora do ambiente. Ocasionalmente pode ouvir e perceber a presença de pessoas fora do ambiente. Ouve conversas ou máquinas fora do ambiente, porém sem distração. Conversas confidenciais possíveis dentro de condições especiais.
  • Privacidade Marginal: Possível de conversar em voz elevada com pessoas fora do ambiente. Ouve muitas vezes sons, conversas e máquinas de fora do ambiente. Consegue entender ocasionalmente as conversas de fora do ambiente.
  • Privacidade Pobre: Possível de conversar com voz normal com pessoas fora do ambiente. Ouve continuamente sons, conversas e máquinas de fora do ambiente. Distrações frequentes.
  • Sem privacidade: Fácil de conversar com pessoas fora do ambiente. Ouve claramente sons, conversas e máquinas de fora do ambiente. Distração total.

Em projetos para espaços corporativos são usuais as categorias Confidencial e Normal, sendo que para o cálculo do isolamento dos elementos são levados em conta a performance acústica individual de cada elemento, o tamanho e o uso das salas, seus revestimentos internos e o nível de ruído interno previsto.
Muitas vezes não existem ensaios acústicos de desempenho acústico disponíveis. Pode ser feito então um projeto específico com indicações construtivas e fabricado um protótipo para ser ensaiado em campo seguindo as normas internacionais (Figura 4a e 4b).

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Figura 4a e 4b – Protótipo em construção para verificação de desempenho acústico

Controle dos níveis de ruído para conforto e vizinhança
A norma ABNT NBR 10.152 indica faixas de níveis de conforto para ambientes internos e a ABNT NBR 10.151 níveis máximos para incômodo de comunidades. É bom notar que ambas estão em revisão e em breve teremos critérios mais atuais para estas avaliações.
Quanto ao conforto para ambientes internos, podemos dividir o assunto em dois aspectos principais:

  • Proteção contra ruídos externos: O projeto da fachada do edifício, com a escolha dos vidros e sistemas de caixilhos é fundamental para garantia de níveis internos de conforto acústico. Estudos da incidência do ruído externo (Fig. 5) orientam a decisão de performance acústica dos elementos da fachada.  

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Figura 5 – Simulação acústica de níveis de ruído nas fachadas

  • Proteção contra ruídos de equipamentos: o emprego de atenuadores de ruído no insuflamento e retorno do ar condicionado e o desacoplamento estrutural de elementos girantes, como motobombas (Fig. 6)  e exaustores, por exemplo, são as interferências mais comuns. Entretanto um estudo detalhado do projeto de instalações poderá detectar possíveis fontes de ruído.

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Figura 6 – Desacoplamento estrutural de motobombas na laje de cobertura

Quanto ao nível de ruído para a comunidade, o projeto de acústica tem uma grande interface com os projetistas de instalações e de arquitetura. É possível prever o impacto que a implantação do edifício causará na comunidade e projetar soluções através de estudos em 3d similares ao anterior
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Figura 5 – Simulação acústica de níveis de ruído nas fachadas dos edifícios vizinhos causados pelos equipamentos localizados na cobertura do edifício em estudo

Conclusão
Edifícios corporativos são grandes aglomerações de pessoas e equipamentos, com um fluxo enorme de troca de informações, com situações muitas vezes difíceis e estressantes.
A tarefa do projetista de acústica é fazer com que a convivência dentro destes espaços seja acusticamente confortável, com garantia de privacidade e segurança nas áreas onde o sigilo é exigido. Como consequência espera-se ótimo ambiente de trabalho e altos níveis de produtividade.
Referências

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 10151 : Acústica – Avaliação do ruído em áreas habitadas, visando o conforto da comunidade – Procedimento. Rio de Janeiro: ABNT, 2000.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 10152: Níveis de ruído para conforto acústico. Rio de Janeiro: ABNT, 1987.

CHANAUD, ROBERT Sound Conditioning Manual for Facilities Managers, Architects & Design Professionals. Norcross GA: Dyna-systems, 1983

LONG, MARSHALL. Architectural Acoustics – Elsevier Academic Press 2006, USA.

 


 

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