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Astro da Acústica

23 de Março de 2010, por Vibranews - O Portal da Acústica
 

José Augusto Nepomuceno

Ele é considerado um dos maiores especialistas em acústica arquitetônica de salas de espetáculo do mundo. Reúne, em seu portfólio, obras, como a Sala São Paulo, na antiga estação de trem Júlio Prestes; o Teatro Bradesco, no Shopping Bourbon, inaugurado no ano passado, Teatro São Pedro e o Credicard-Hall. Seu talento, herdado do pai, Lauro Xavier, atravessou fronteiras e ganhou o Exterior. Tanto que metade do tempo fica em São Paulo e a outra metade fora.

 

Nesta entrevista ao jornalista Ailton Fernandes, editor do Vibranews (www.vibranews.com.br) o consultor José Augusto Nepomuceno, diretor do escritório Acústica & Sônica, (www.acusticaesonica.com.br) conta que os resultados alcançados na Sala São Paulo impulsionaram sua atuação para o Exterior; analisa a qualidade dos materiais acústicos, que a acústica, finalmente, ganha prioridade nos projetos de teatros, e admite: tem  “obsessão” pelo som perfeito.

 

 

P - A inauguração da Sala São Paulo, na estação de trens Júlio Prestes, completou 10 anos. Qual a importância desta obra para a evolução da acústica no Brasil? Pode dizer que ela é um divisor de água. Uma referência?

R - A Sala São Paulo é uma referência importante porque os resultados foram muito bons. Tem toda aquela tecnologia do forro móvel, da laje e balcões flutuantes, etc., mas de fato o que interessa é que a acústica foi a prioridade do projeto. Penso que abriu olhos e ouvidos para clientes, arquitetos e usuários sobre a importância de uma sala com acústica exemplar. Os resultados da Sala despertaram interesse de grupos internacionais nas nossas atividades e deu impulso à nossa atuação no Exterior.


P – Na Sala São Paulo, qual o “milagre” para ninguém ouvir o barulho dos trens?

R - O “milagre” vem em duas direções, som estrutural e som aéreo. No início do projeto, realizamos medições de aceleração vibratória em várias superfícies do então Julio Prestes - piso, colunas, paredes verticais. Concluímos quais eram as principais partes que irradiavam ruído estrutural e especificamos isoladores de vibração para o piso da platéia, balcões e palco para controle de ruído estrutural. Som aéreo é controlado graças a espaços existentes entre a via férrea e a sala, que faz atenuação acústica em “cascata”. Os vidros acústicos especificados durante o projeto não foram totalmente instalados, o que nos frustra um pouco.


P – Seu escritório está desenvolvendo um mega projeto acústico no Exterior. Pode adiantar detalhes?

R - Há mais de 10 anos, estou envolvido em projetos no Exterior e passo parte do ano no Brasil e parte fora. De fato, estou envolvido no projeto de uma sala de ópera para 1500 pessoas no Exterior, onde desenvolvemos os projetos de acústica, som, planejamento espacial e mecânica. Nesta fase, terminamos os testes acústicos em modelo físico. Não posso entrar em maiores detalhes a pedido do cliente. Além deste projeto, estamos também envolvidos no Porto de La Música, em Rosário, na Argentina.

 

 

P - No currículo de seu escritório, consta também o Teatro Bradesco, inaugurado no ano passado no Shopping Bourbon. Do ponto de vista acústico, o que vale a pena destacar nesta obra?

R - Vale destacar que tivemos apoio total e irrestrito dos clientes desde o início dos planos. Com isto, a geometria e volumetria da sala atenderam as demandas acústicas do programa. Outros pontos que valem a pena ressaltar são o revestimento das paredes em pedra; painéis com furações especiais para controle de resposta em baixas freqüências; o sistema de difusão-absorção nas paredes de fundo da platéia; e os isoladores de borracha que apóiam todo o teatro.

 

P – Como conciliar a busca pela alta qualidade de seus projetos acústicos com a verba, com o investimento que os clientes desejam fazer?

R - Em geral, tanto os projetos acústicos como as obras de teatros, de salas de espetáculos envolvem valores superiores aos praticados pela construção convencional. Os clientes têm essa consciência. Até os CÉUS necessitam de uma verba maior quando entra a área de acústica.

 

P – O senhor já declarou que busca, sempre, o som perfeito. Isso é uma obsessão?

R – Para mim, é. O som em uma sala de espetáculos deve ser obrigatoriamente limpo, claro e silencioso. Tenho essa obsessão de que os teatros sejam livres de ruído estranhos. Imaginar que a eficiência de um atenuador de ruído ou de uma porta acústica, resolve o problema,não é assim...

 

P - O que há de novo na acústica aplicada em salas de teatro e de espetáculos?

R - Acho que a grande “novidade” é o reconhecimento que a acústica deve estar no topo das prioridades de projetos de teatros. E este reconhecimento começa a dar sinais de vida no Brasil. Não adianta de nada falarmos sobre de ajustes acústicos, sistemas eletrônicos, modelos de simulação, se a acústica for encarada como um “band-aid” ou como um “conserto” a ser aplicado na arquitetura.

 

P – Os materiais acústicos fabricados no Brasil são similares aos da Europa, Estados Unidos, ou estamos defasados? Alguma novidade neste campo?

R - De uma forma geral, os materiais fabricados na Europa ou EUA são disponíveis aqui. O problema está nos sistemas - o material que vira um produto. Existe nos EUA e Europa uma grande quantidade de “traquitanas tecnológicas”, todas de altíssimo padrão de qualidade, como clips flexíveis, mini-isoladores, massas de vedação, juntas acústicas, selos para portas acústicas, que se fossem disponibilizadas no Brasil dariam um grande avanço no nível de qualidade das instalações.

 

P – Por que, esses materiais não estão disponíveis? Problema de alfândega? Custo proibitivo?

R - Acho que é um estágio de desenvolvimento de mercado. Em termos de troca comercial e de padrão tecnológico, o mercado de acústica nos EUA e Europa é significativamente superior ao do Brasil. A decisão de fazer as coisas corretas, que funcionem adequadamente, “sem jeitinho”, se avista chegando no Brasil. E daí, será mais fácil para o cliente distinguir um “trequinho de borracha” de um selo acústico com neoprene ajustável testado, por exemplo.

 

P – Quais os pecados acústicos em um projeto acústico?

R - Pecados nós vemos e ouvimos em todas as partes. Para resumir, acho que o maior pecado é quando a sala é projetada sem atender a um programa técnico correto. Ai, as coisas são erradas: a sala barulhenta, os volumes não atendem às demandas de tecnologia, os acessos técnicos são medíocres, e aí vai.

 

P – Por último, quais são seus sonhos no campo profissional?

R - São muitos, e que ficam aqui dentro de mim. Gostaria de ter desenvolvido um teatro pequenino com meu amigo Oscar Niemeyer - e acho que ficará como um sonho gostoso de ter.

 


 

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