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Aula de Acústica - Professora Stellamaris Rolla Bertoli

27 de January de 2009, por Vibranews - O Portal da Acústica
 

Professora Stellamaris Rolla Bertoli

Mestre em Física (1984), Doutora em Ciências (1989), ambos pela Unicamp e professora Livre Docência de Acústica tanto na graduação como na pós-graduação da Engenharia Civil e da Arquitetura da Unicamp. Além disso, atua também na orientação de trabalhos acadêmicos na parte de qualidade acústica de salas, igrejas e participa ativamente de projetos de pesquisa financiados pela FAPESP e pela Unicamp. No ano passado, completou 20 anos de atuação na universidade e recebeu o título “Zeferino Vaz”, de reconhecimento acadêmico.



Nesta entrevista exclusiva ao Vibranews, a professora Stellamaris Rolla Bertoli traça um panorama da área de conforto acústico no País, crítica a legislação vigente, qualidade dos materiais, chama a atenção para melhorar a relação entre o vendedor e o especificador e destaca trabalhos acústicos desenvolvidos por seus alunos.

P – Como identificar um excelente projeto acústico?
R - É fundamental que exista parceria entre o arquiteto e o especialista de acústica. Se o arquiteto não é especialista em acústica, precisa contar com o apoio deste profissional. Além disso, é fundamental a integração de projetos entre as varias necessidades da edificação. Às vezes, você faz o projeto, a adequação acústica, mas outras interferências acabam alterando o projeto inicial.  

P – A legislação e normas atendem as necessidades do setor?
R – De maneira nenhuma. A verdade é que nós somos pobres em legislação e normas. Se você pensar e comparar com as normas ISO... Nós temos só as NBRs 10.151, 10.152, para conforto de edificação (que está sendo revisada) e de avaliação de poluição sonora. A gente acompanha lá fora e vê normas muito mais específicas. Por exemplo: a qualidade dos materiais. Você tem poucos laboratórios que fazem essas análises. Então, para o consultor fica difícil. A legislação é capenga. Se ela não tem norma, como pode exigir alguma coisa. Além disso, são poucos os laboratórios que podem fazer os laudos. Então, você começa a exigir os laudos dos materiais, mas quem vai fazer isso?  Não dá para esperar um ano para isso.

P - Mas a NBR 15.575, não é um avanço?
R – Sem dúvida, a gente teve um ganho com a NBR 15.575, que foi aprovada em maio do ano passado e vai entrar em vigor no ano que vem. É uma norma de desempenho para edifícios verticalizados. Um dos itens é qualidade acústica. Então, ela prevê isolamento entre paredes de uma mesma edificação, isolamento de paredes entre duas edificações (problema de impacto) e propõe níveis que são os mínimos de qualidade. Mas, ela precisaria para ser completada. Afinal, os índices de exigência são muito baixos. Por isso, já existe movimentação para propor melhorias desses parâmetros.

P – Qual sua opinião sobre a qualidade dos materiais acústicos fabricados no País?
R – Existem bons materiais, mas tenho notado certa desinformação entre o vendedor e o técnico daquele produto. Às vezes, o vendedor não tem a formação necessária para passar as informações corretas. Daí, o pessoal usa material indevidamente. O material é para uma coisa e é usado para outra. Você precisa de um desempenho e o material não corresponde. Falta uma ligação mais estreita entre o comercial e o técnico para que as informações sejam corretas.

P – Dá para estabelecer uma comparação com os materiais de outros países?
R – Ainda estamos atrasados tanto na diversidade como na qualidade. Considero, inclusive, que 20% dos materiais nacionais são de boa qualidade. O resto é meio capenga. Eu participei há pouco tempo de um congresso em Coimbra (Portugal) e a quantidade de material é muito grande. E tudo comercial. Não adianta ficar pensando só em desenvolver o material, porque até ele ir para o mercado, fica muito longe.

P – Exemplo?
R – Tem um material novo, importado há pouco tempo, que é para absorção de baixas freqüências. São placas perfuradas de madeira, muito usadas na Espanha e Portugal. Aqui, no Brasil, começou a chegar agora. Existe uma empresa que está trazendo para cá, mas o preço ainda é muito alto. Os difusores, muito usados em teatros e estúdios, nós ainda não temos. Pra você ter, você precisa fazer o desenho e pedir para o marceneiro fazer. Então, fica quase uma obra de arte. Nos Estados Unidos, você tem firmas que fazem isso tranqüilamente.

P – Quais os projetos da Unicamp na área de conforto acústico?
R - A Faculdade de Engenharia Civil da Unicamp foi a primeira a incorporar conforto acústico na graduação. É pioneira. Aqui temos uma área de conforto que engloba a parte luminosa, térmica e acústica. Na parte acústica, desenvolvemos um trabalho com a parte de poluição sonora e controle de ruídos. Hoje, estamos atuando mais na área de qualidade do controle acústico de salas de aula e igrejas.

P – Igrejas?
R – Sim. O aluno Marcelo Bottazzinni (Doutorado em 2007) pegou todos os projetos das igrejas barrocas de Ouro Preto, Mariana, São João Del Rey, Tiradentes e passou tudo para o Auto CAD. Com isso, abriu caminho para trabalhar com a simulação acústica dessas igrejas. Criou também desdobramentos para se trabalhar a acústica e a arquitetura dessas igrejas. Um trabalho que não vai ter mais fim. Mas não houve intervenção. Só levantamento. Mas essas igrejas têm muita qualidade acústica. Tem diferencial no próprio comportamento e no tempo de reverberação. Elas também se destacam para a música por conta de sua arquitetura.

P – E as salas de aulas?
R - O problema maior é reverberação. Aqui, no campus, não temos problemas de ruídos por causa do trânsito. Mas as salas são grandes, reflexivas, então, tem uma reverberação muito alta. Nós trabalhamos também com escolas da rede pública da região de Campinas. Uma aluna minha, a Adriana Eloá, trabalhou com 12 escolas. A gente percebeu que as escolas mais antigas tinham salas com qualidade acústica melhor do que as novas. Então, fizemos um estudo sobre os materiais que estão sendo usados,  o que mudou, a forma e o próprio uso da sala. Tinha sala que era para ser teatro e virou biblioteca. Não dá para fazer crítica ao arquiteto. Se você muda o tipo de uso, é óbvio que muda as condições acústicas exigidas.

P – Em sua opinião, as escolas de Arquitetura formam bons profissionais na área acústica?
R – Eu acho que a formação é incipiente. Os alunos sabem que acústica é importante, mas nem todos têm a condição de pegar grandes projetos, mas eles recebem a formação mínima. O que percebo é que os alunos que tem interesse na área de acústica voltam depois e fazem a pós-graduação. Ainda precisa uma especialização para melhorar o nível.

 


 

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