Ana Claudia Fiorini*

Os profissionais das áreas de saúde e segurança do trabalho têm ciência dos impactos ambientais, decorrentes do avanço tecnológico, e das repercussões qualitativas e quantitativas para o crescente aumento da taxa de prevalência de perdas auditivas verificadas na fase adulta. Há um conjunto de fatores endógenos (características do próprio indivíduo) que somados aos fatores exógenos (exposições a ruído, vibração e produtos químicos, dentre outros), ocasionam uma série de alterações na saúde, podendo, entre outros males, provocar perdas auditivas irreversíveis.
Enquanto a preocupação relacionada às exposições a esses fatores exógenos voltava-se apenas aos ambientes de trabalho, projetos e medidas foram implementados com o propósito de proteger os trabalhadores. Atualmente, porém, percebe-se que, independentemente e ou associado à atividade profissional dos indivíduos, tais exposições fazem parte do nosso cotidiano. É necessário avaliar algumas atividades que são realizadas, além da jornada de trabalho diária.
É comum, no Brasil, constatar-se que praticamente em todas as atividades de lazer, independente da classe social, há exposição a níveis de pressão sonora elevados, seja de forma intermitente ou contínua. Tomemos como exemplo os shows, o ruído em bares, restaurantes, danceterias, bailes, festas populares, cultos religiosos, academias de ginástica e outros. Assim, a perda auditiva induzida por ruído passa a não ser uma doença exclusivamente relacionada ao trabalho. Desta forma, torna-se de fundamental importância o estudo dos agentes de risco para a audição, considerando tanto as exposições ocupacionais , quanto as extra-ocupacionais.
As conseqüências da exposição ao ruído podem ser de duas ordens: efeitos na audição e efeitos gerais. De acordo com a ORGANIZAÇÃO PANAMERICANA e a ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (OPAS-OMS, 1980), o ruído pode perturbar o trabalho, o descanso, o sono e a comunicação nos seres humanos; pode prejudicar a audição e causar ou provocar reações psicológicas, fisiológicas e talvez até patológicas.
Os efeitos do ruído na audição podem ser caracterizados como trauma acústico, alteração temporária do limiar e perda auditiva induzida por ruído. O trauma acústico é definido como um problema auditivo causado por uma única exposição a níveis sonoros elevados que podem ser tanto em ambiente ocupacional, quanto em atividades de lazer (fogos de artifício, armas de fogo e outros). Neste caso, pode ocorrer destruição de células sensoriais da cóclea e ocasionar perda irreversível, normalmente em freqüência isolada e na região entre 3k e 8kHz.
A alteração temporária do limiar, também conhecida como TTS (“temporary threshold shift”), consiste na redução do limiar auditivo logo após a exposição ao ruído. Esta diminuição da audição é temporária, pode ser acompanhada por zumbido, tendendo a voltar ao normal após algumas horas de cessada a exposição.
A exposição continuada a elevados níveis de ruído pode ocasionar lesões nas células da cóclea localizada na orelha interna. Isto pode acarretar uma perda auditiva de caráter irreversível e progressivo (caso o indivíduo permaneça longos períodos exposto ao ruído). Esta perda é do tipo neuro-sensorial, acomete inicialmente entre as freqüências de 3 kHz e 6 kHz e pode ser chamada de perda auditiva induzida por ruído (PAIR).
A PAIR é uma das doenças relacionada ao trabalho de maior prevalência no meio industrial. As pesquisas científicas indicam uma variabilidade na prevalência de 20 a 60% nos diferentes segmentos industriais (metalurgia, têxtil, siderurgia, químicas, petroquímicas, construção civil e outros). Porém, a PAIR também pode não ter relação com o trabalho, mas com as diversas exposições, principalmente nas atividades de lazer (uso de estéreos pessoais, locais com música eletronicamente amplificada e outros). Assim, tal doença crônica torna-se um problema de saúde pública que deve ser controlado por meio de ações de proteção aos indivíduos com o objetivo de prevenção de perdas auditivas e eventuais efeitos na saúde geral.
A prevenção de perdas auditivas ocupacional envolve um conjunto de ações, principalmente de vigilâncias sanitária e epidemiológica, com o grande objetivo de alcançar índice “zero” de piora audiométrica, ou seja, nenhum caso de desencadeamento e/ou agravamento. Para tanto, as ações partem de três pilares: gerenciamento das variáveis do ambiente (riscos ocupacionais), gerenciamento das exposições não ocupacionais e gerenciamento audiométrico. Assim, torna-se claro o fato de que devemos considerar, prioritariamente, os seguintes itens para cada empresa: riscos ambientais, situação auditiva dos trabalhadores, equipe técnica disponível e recurso financeiro a ser disponibilizado. As ações coletivas e individuais só serão planejadas e viáveis para serem implementadas se o sistema e/ou programa for realmente personalizado, ou seja, adequado à realidade e às condições de cada empresa.
No caso da PAIR não relacionada ao trabalho há necessidade urgente de ações de educação em saúde e educação ambiental no sentido de informar e formar a população para, no exercício da cidadania, exigir seu direito à saúde dos órgãos públicos. Além disso, a população informada pode ser um agente transformador do próprio comportamento no sentido de buscar melhores condições de saúde.
*Ana Claudia Fiorini,
Fonoaudióloga, Doutora em Saúde Pública pela FSP-USP, Professora Doutora da PUC-SP, Fonoaudióloga da DERDIC-PUC-SP, Vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Acústica (SOBRAC) e consultora de empresas.
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